[Autor Convidado] O lado inverso: como não escolher a profissão de Relações Públicas

   Existe um momento em que as decisões mais importantes devem ser tomadas. Ele vem sendo construído desde o nosso nascimento, quando entendemos que possuímos uma imagem no mundo e, a partir disso, precisamos nos desenvolver. Para ser mais exato, nesse época ainda não refletíamos tanto, já que nossos atos eram  quase um processo de indução. Os segundos vão cruzando os ângulos do relógio e percebe-se que é hora de nos posicionarmos: afinal, não quero ser um profissional de Relações Públicas e preciso desconstruir a minha própria imagem. 

Na época da escola, os planos eram sempre os mesmos: jogar futebol e beijar as meninas. Em algumas situações poderia ser legal criar brigas com os colegas, afinal, furar a fila nunca era uma atitude que pudéssemos nos orgulhar, mas grande maioria praticava. E quando os professores faziam passeios, a bagunça no ônibus prevalecia. Foi uma fase de imersão.



Para boa parte das pessoas, o tempo é um fator bem complicado. Para mim, não. O tempo sempre me ajudou a refletir. Ah, sobre o sistema de reflexão posso dizer que é quase um desafio, afinal, é se colocar em silêncio. E, na era da correria, do celular e dos grupos no WhatsApp, essa postura requer, quase que auxílio terapêutico.

Mas eu falava sobre a imagem que construímos desde pequenos. Pois bem, nasci um bebê muito bonito, olhos grandes. Me desenvolvi como uma criança rebelde e um adolescente egocêntrico. Percebia, aos poucos, que a sombra do ponteiro da tomada das decisões chegava no menor dos meus dedos, sinalizando que a hora estava próxima. Foi uma fase de conhecimento. 



Para onde correr? Ora, para longe de mim mesmo. Estava decidido: não serei Relações Públicas. Foi a fase da consciência. 


Como qualquer universitário, busquei conhecer os campos de atuação de variadas áreas. Percebi que não gostaria de lidar com sangue, mas sabendo que em mim pulsava algo muito forte. Também olhei os prédios e vi que poderia ser legal, mas que o medo de altura me impossibilitaria. Computadores são divertidos, ainda mais quando lembro do grande carinho e vontade de poder criar soluções para a vida de outras pessoas. Essa consciência só me gerou mais dúvidas e algo começou a intrigar-me, pois a cada nova descoberta, em paralelo, uma perda minha ocorria. 

Minha imagem se esvairia junto com aquelas profissões que não me completavam. Mais algumas voltas no relógio, noites sem dormir e xícaras de café, li algo sobre "Relações Públicas ser a atividade e o esforço deliberado, planejado e contínuo para estabelecer e manter a compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os grupos de pessoas a que esteja, direta ou indiretamente, ligada". Continuei a leitura e descobri que o tal conceito havia sido escrito em 1995, mesmo ano em que nasci, por uma dita Associação Brasileira de Relações Públicas. Fui dormir naquela noite. 

Passado um mês, não havia me dado conta, mas ingressei na fase da reflexão novamente. Algo me prendia a tentar exemplificar esse conceito. Inverti a ordem e resolvi "me encontrar", já que fugir não estava dando resultados. 


Ser induzido mas refletir sobre, organizar os planos, me relacionar com as meninas, fazer a gestão das crises da fila, ser político e empático, participar dos eventos. Poxa, áreas visíveis de uma profissão que eu havia negado. 

Logo, percebi que a grande caixa preta estava no silenciar. Precisei parar e ouvir, enxergar que o sangue da Medicina que pulsava em mim era o de construir a identidade de uma organização, o que ela realmente é. A exatidão da Engenharia, que tanto me chamava atenção, nada mais era do que as ferramentas lógicas e fundamentadas que eu dispunha para mensurar os resultados de uma pesquisa sobre clima organizacional ou redes sociais. O Sistema de Informação seria traduzido pelo realizar campanhas de engajamento e responsabilidade social e, sim, transformar não só a vida das pessoas, mas o mundo. 

Ao desconstruir minha imagem, percebi que o bom profissional de Relações Públicas precisa estar desarmado das situações e compreender a esfera em que atua. Análise de cenário é intrínseco a sua existência. 

O simples fato de desconstruir gera a retórica do ter de construir novamente. Iniciei a reconstrução e foi a fase do aprendizado. Compreendi que existe um mercado que se posiciona de forma míope, desintegrado, ainda cheio de achismos. Mas também conheci gente especial que ao falar dos conceitos, técnicas e práticas da profissão de Relações Públicas, brilhava o olho mais que a estrela maior: o Sol.

Atualmente, vivo a fase da expansão, pois me desfiz da imagem de bebê, criança e/ou adolescente, e construo a de um profissional ético, que articula, gesticula, movimenta faz e ama sua área. Aquele conceito de 1995, que me parecia tão antigo, ainda é o mesmo. Aliás, minha opinião também é a mesma. A diferença é que constantemente trabalho para reconfigurá-lo em minha essência.



Nesse trabalho, mesmo sem ter uma bola de cristal, prevejo uma união de muitas outras correntes acadêmicas, uma chamada "Comunicação" que seja realmente "Social". Ah, aproveito para apresentar a área de Relações Públicas como uma das integrantes desse grande grupo formador que é a ciência comunicacional. 

Quando iniciei a conceituação do que a tão marcante frase de 1995 representaria pra mim, críticas surgiram como grãos de areia permanecem em frente ao mar. Umas me chateavam mais que outras, principalmente, as de cunho financeiro, como "isso realmente dá dinheiro"?

Na minha fase consciente, a contabilidade ou o trabalho de um bancário nunca me conquistaram, por isso, não enxergo isso como um fator decisivo para a tomada de decisões. A mais profunda decisão foi interpretar que a bola de cristal, num futuro próximo, deve ser entendia como a inter-relação dos profissionais, uma busca por mais referências, um ir à campo com mais sede de resultados. 

Contrastando o conceito da Associação com o meu de hoje e o futuro, resumiria a apenas: Relações Públicas é a profissão mais complexa e completa, já que lida com pessoas. E pessoas com níveis diferenciados de poder. Esses sistema ideológico, dito poder, faz com que não consigamos silenciar e acabemos nos perdendo. A expansão deve se tratar de um nível micro para um macro, onde o micro representa o eu saber me portar e defender objetivos, enquanto que o macro acompanha a evolução do micro e associa os campos irmãos: todas as ciências humanas (e também as exatas e da natureza). 

Hoje estou de férias, um novo tempo que me dou, depois de fazer com que minhas organizações ofertem qualidade de vida aos seus colaboradores, lucros aos seus acionistas, margens para o governo, recursos para organizações não governamentais, bons produtos para os clientes e compreensão dos seus anseios e, principalmente, realização pessoal e profissional para mim. Ah, e ainda sobre o tempo, que bom mesmo que ele intercede por nós. Ao invés de complicar, facilitou a configuração de novas fases no meu dia a dia. Aproveito para lembrar que no nosso projeto de vida podemos construir e desconstruir quantas vezes forem necessárias até nos encontrarmos  

Prazer, eu sou um homem do futuro, eu sou um Relações Públicas. 
(Aqui inicia a fase da experiência e da solidificação. Dependendo, unicamente, do particular). 


Bruno César
Graduando em Relações Públicas da UniRitter. Planner na Conjunto Comunicação. Acredita no poder transformador da educação. Um cara apaixonado por livros e pelo comportamento social. Curte uma boa música, tomar uma cerveja e não troca a companhia dos amigos. Em breve professor Universitário. 

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